Com crise da dívida de 82, Brasil correu risco de racionar gasolina

A um triz do racionamento
Autor(es): agência o globo:Eliane Oliveira
O Globo – 03/09/2012
Quebrado na crise da dívida de 82, país teve difíceis negociações com árabes para evitar falta de petróleo

BRASÍLIA A crise da dívida em 1982 levou o Brasil à iminência de um racionamento de combustíveis. Com o petróleo atingindo preço recorde no mercado internacional, o país chegou a considerar interromper sua importação. Mas, segundo relatos inéditos obtidos pelo GLOBO, o governo acabou optando por fazer de tudo para manter a oferta do produto e seus derivados à população. O então presidente João Figueiredo disse à equipe econômica que toleraria uma inflação mais alta e desequilíbrios econômicos com a crise, mas não a falta de combustíveis.

– O grande desafio colocado por Delfim (Antonio Delfim Netto, ex-ministro do Planejamento) e Galvêas (Ernane Galvêas, ex-ministro da Fazenda), a pedido de Figueiredo, era que não faltasse petróleo – relembra o economista Carlos Langoni, então presidente do Banco Central (BC), ao GLOBO, que iniciou ontem série de reportagens sobre o chamado “setembro negro”, baseada em documentos secretos do Itamaraty no Arquivo Nacional.

A decisão era restringir as importações ao essencial, o que incluía o item petróleo. Entre 1981 e 1982, houve queda na importação do produto, mas desde 1978 o governo vinha fechando a balança comercial no vermelho para abastecer o país.

Em 1982, o comércio exterior teve saldo positivo devido a uma freada de quase 15% nas importações. Outros produtos foram sacrificados para evitar o racionamento de combustível, e o petróleo chegou a representar 80% de tudo o que o Brasil comprava do exterior.

Havia um acordo com o governo do Iraque que assegurava boa parte das importações em uma situação similar a um escambo: o Brasil fornecia, entre outros produtos industrializados, armamentos e automóveis ao país árabe. Mas isso não supriu a necessidade total de petróleo em 1982.

O nível de reservas da Petrobras recuava, e os países não aceitavam mais cartas de crédito do Banco do Brasil, necessárias para a aquisição de barris. Outro grande fornecedor de petróleo ao Brasil era a Arábia Saudita. No fim de 1982, um navio carregado de óleo destinado à estatal brasileira ficou retido no porto saudita por falta de pagamento.

Negociação difícil com árabes

Langoni conta que teve de viajar ao país árabe, onde ficou por quatro dias, passando o chapéu entre salas de mármore cobertas por tapetes, enquanto o dinheiro aqui rareava. Ele obteve uma carta de crédito corrigida pela Taxa Libor (taxa de juros interbancária de referência internacional) para comprar o produto.

– O BC deu uma garantia meramente virtual, porque não tínhamos reservas. Nosso único compromisso era comprar o petróleo deles – disse.

Mesmo após essa negociação, o ex-presidente do BC telefonou para o então presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Mário Garnero, que estava em Nova York, para pedir socorro.

Garnero, que já havia servido de ponte entre o governo brasileiro e as autoridades econômicas americanas, graças ao bom relacionamento que mantinha com o então secretário de Estado dos EUA, George Shultz, voltou a agir.

– Langoni me disse que a Arábia Saudita, que havia prometido um adiantamento ao Brasil no valor de US$ 500 milhões, não estava cumprindo o prometido – afirma Garnero ao GLOBO. – Era véspera de Natal. Falei com o Shultz, que pediu aos sauditas para liberarem o dinheiro ao Brasil o mais rapidamente possível.

Na visão do então ministro do Planejamento, Antônio Delfim Netto, o endividamento externo do Brasil estourou por causa do segundo choque do petróleo, em 1979, e não devido ao crescimento econômico brasileiro na década de 70.

– O endividamento foi feito para que o Brasil não se transformasse em Bangladesh – diz ele. – Nisso o presidente Geisel (Ernesto Geisel, general que presidia o Brasil à época) foi absolutamente correto. O que nós nos recusamos a fazer foi uma coisa óbvia: nunca impusemos um preço que exigisse a redução do nível de consumo de petróleo.

país quase racionou antes

Antes de 1982, o Brasil já havia flertado com o racionamento de combustíveis. Ministro da Fazenda entre 1974 e 1979, Mario Henrique Simonsen chegou a considerar o racionamento na oferta de petróleo no país frente ao primeiro choque do petróleo. A ideia era distribuir cadernetas aos motoristas, limitando-lhes o acesso a combustíveis. Esses papéis foram apelidados de “simonetas”, mas diante da ojeriza da população ao racionamento, Geisel desistiu.

– Eu me divirto muito quando vejo que as pessoas dizem que foi o Gorbachev (Mikhail Gorbachev, secretário-geral do Partido Comunista soviético) que destruiu a URSS. Não foi não. Quem destruiu a URSS foi a crise do petróleo – afirma Delfim Netto.

A primeira crise na oferta do produto ocorreu no início dos anos 1970. A Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep), cartel dos produtores, aumentou os preços internacionais, causando o chamado “choque do petróleo”. Em valores de hoje, o preço foi de US$ 14,30 o barril em 1973 para US$ 47,50 no ano seguinte.

O preço do petróleo voltou a disparar com a revolução islâmica no Irã. A cotação, que em 1978 estava em US$ 77,70 o barril, pulou para US$ 103,60 em 1980. Junto a isso, os EUA elevaram os juros para controlar sua economia. Mesmo sem racionamento oficial no Brasil, os valores subiram e eram comum filas nos postos.

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Publicado por

Rodrigo Santhiago Martins Bauer

Advogado, pós-graduado em Direito Tributário pela LFG, graduado em Direito pela PUC Campinas